Sonetos

Sonetos. Coletânea de sonetos organizada por Ovídio Poli Junior [Paraty, RJ: Selo Off Flip, 2025].

A língua portuguesa é pródiga em sonetistas. Dedicaram-se ao gênero Camões, Bocage, Antero de Quental, Florbela Espanca, Gregório de Matos, Machado de Assis, Olavo Bilac, Francisca Júlia, Cruz e Sousa, Augusto dos Anjos, Jorge de Lima, Vinícius de Moraes e, mais modernamente, Cecília Meireles, Mario Quintana, Glauco Mattoso e tantos outros.

No rastro dessa tradição, o Selo Off Flip lançou chamada para publicação de uma antologia que reúne sonetos com ampla variedade formal, em estilo tradicional (com métrica e rimas) ou em estilo moderno: versos livres (sem métrica) e brancos (sem rimas).

Esses textos vêm agora a público. Boa leitura!

A UMA ABELHA QUE SE PRENDEU NO ÂMBAR
[Adriano Lobão Aragão]

em beleza, delícia e decoro
pela tarde divaga a breve abelha
desejando a eternidade envolvê-la
quando na seiva arriscasse seu pouso

mas que outra forma no âmbar deixaria
a delicada essência de teu voo
muito além dos limites desse corpo
no pouso impresso na matéria fria

quem sabe o tempo ou o corpo somente
revestido na resina do instante
quem sabe o voo colhido nesse ventre

quando nenhum outro engenho enfim alcance
sem que a morte para este fim se invente
ao colher a beleza que lhe encante

Antologia selvagem

Antologia selvagem. Um bestiário da poesia brasileira contemporânea. Coletânea de poemas organizada por Alexandre Bonafim, Claudio Daniel e Fábio Júlio [Franca, SP: Cavalo Azul, 2025].

A antologia reúne poetas de diversas regiões do país e propõe uma leitura sensível do animal como força imaginativa, signo crítico e campo de afetos. Cada texto convoca uma relação singular entre corpo, linguagem e mundo, fazendo da animalidade um espaço de inquietação e beleza. O livro se torna, assim, território de múltiplas vozes, aberto a experimentações poéticas que partem da natureza, da memória e da vida urbana para reinventar a presença do animal na literatura brasileira atual.

Participaram do livro, dentre muitos outros poetas, Ademir Assunção, Adriana Lisboa , Adriano Espínola, Adriano Lobão Aragão, Alexei Bueno, André Dick, Antonio Carlos Secchin, Beth Brait Alvim, Clarisse Lyra, Claudia Roquette-Pinto, Dora Ferreira da Silva, Elson Fróes, Leila Guenther, Marco Lucchesi, Marcos Siscar, Maria Carpi, Mariana Ianelli, Micheliny Verunschk.

A UMA ABELHA QUE SE PRENDEU NO ÂMBAR
[Adriano Lobão Aragão]

em beleza, delícia e decoro
pela tarde divaga a breve abelha
desejando a eternidade envolvê-la
quando na seiva arriscasse seu pouso

mas que outra forma no âmbar deixaria
a delicada essência de teu voo
muito além dos limites desse corpo
no pouso impresso na matéria fria

quem sabe o tempo ou o corpo somente
revestido na resina do instante
quem sabe o voo colhido nesse ventre

quando nenhum outro engenho enfim alcance
sem que a morte para este fim se invente
ao colher a beleza que lhe encante

Haicai – Do Japão ao Sertão

Haicai – Do Japão ao Sertão. Coletânea de poemas organizada por José De Nicola e Cineas Santos [Teresina: Oficina da Palavra, 2025].

Participaram do livro: Adriano Lobão Aragão, Carlos Emílio Faraco, Cineas Santos, Climério Ferreira, Dalila Teles Veras, Demetrios Galvão, Dilson Lages Monteiro, Ernâni Getirana, Francisco Magalhães, Graça Vilhena, J.L. Rocha do Nascimento, José De Nicola, Marina Campelo, Marleide Lins, Menezes y Morais, Paulo Moura, Penélope Martins, Rogério Newton, Roseana Murray, Rubervam Du Nascimento, Suzana Vargas, Tanussi Cardoso, Thiago E e Val Melo

__________

caminho e morada
natureza em silêncio
perseverança da lesma

__________

mercado do mafuá
cheiro verde
na banca de tempero

O poema é o bicho

Que tipo de bicho é o poema? Neste livro, doze poetas transformam versos em bichos (e vice-versa). Uns miúdos, outros imensos, todos pulsando vida. Gata, girafa, formiga, lagarta, passarinho, tigre, borboleta… cada criatura se reinventa em palavra. Leia devagar: pode ser que uma joaninha resolva acompanhar a leitura pousando no seu ombro. Se preferir, pode até colorir. [Adriano Lobão Aragão / Thiago E]

uma zoologia poética

A coletânea de poemas, a ser lida a seguir, reúne doze poetas contemporâneos, arregimentados do Piauí, do Maranhão e da cubana Pinar del Rio. A aliança pretende nos dizer da vitalidade, da atenção ao sopro da poesia de nosso tempo. Além disso, “o poema é o bicho” aprofunda a escolha e traz todos os poemas encilhados em mimese zoológica, sumarizando uma espécie de bestiário poético. A mobilidade verbal dos poemas investe na percepção diante dos bichos e seus condicionantes biológicos, suas curiosidades instintivas, além de lhes serem dadas outras atribuições semânticas e imagéticas pelo olhar do(a) poeta, inspecionando assim nosso irresoluto dialético entre natureza e cultura.

Outra concentração aqui encontrada atende à poética da brevidade. A concisão, a celebração da síntese como conduto estrutural do poema, o breve contrapondo-se ao caudal lírico são a fatura resultante. Alguns assumem as lições dos poetas japoneses Bashô e Issa com a essencialidade do haicai, essa tradição que se espalha há tempos pelo poema brasileiro e que já ganhou dicção pindorâmica. E como a língua portuguesa não dispõe de escrita ideogramática para a possibilidade visual do poema, a coletânea recorre ao signo gráfico como representação, cada poema recebe sua nomeação iconográfica. Aos cuidados de Adriano Lobão, os traços também avultam em concisão e seguem a economia de informação, trazendo a figuratividade no contorno e no residual do grafismo em preto e branco.

Esta apresentação seguiu também a sintaxe da brevidade, restando ao leitor e leitora a complementaridade com a recepção a esta fauna poética.

Feliciano Bezerra
Professor de literatura (UESPI),
cantor e compositor

O poema é o bicho. Coletânea de poemas organizada por Marleide Lins e Thiago E, com ilustrações de Adriano Lobão Aragão [Teresina:  AvantGarde, 2025]. Participaram do livro: Adriano Lobão Aragão, Aliã Wamiri Guajajara, Cineas Santos, Demetrios Galvão, Laís Romero, Luiza Cantanhêde, Marian Campelo, Marleide Lins, Nelson Simón, Sergia Alves, Thiago E e Wanderson Lima.

eu percebi
a grandeza da natureza
pela primeira vez
quando vi uma girafa

caminho e morada
natureza em silêncio
perseverança da lesma

Antologia Poética Brasil-Cuba

Organizada por Marleide Lins, Jone Clay Macedo (Brasil) e Nelson Simón (Cuba), a Antologia Poética Brasil-Cuba reúne, em edição bilíngue (portugês/espanhol), poemas de diversos autores brasileiros e cubanos,  incluindo Adriano Lobão Aragão, Caio Negreiros, Dalila Teles Veras, Demetrios Galvão, Laís Romero, Nayara Fernandes, Thiago E, Wanderson Lima, dentre outros.

Na seção de poetas brasileiros contemporâneos, encontramos os poemas de Adriano Lobão Aragão:  Linha de mão / Línea  de mano [pág 38-39]; As pedras a deusa / Las piedras la diosa [pág 40-41]; Cemitério São José / Cementerio San José [pág 42-43]. A tradução dos referidos poemas foi feita por Floriano Martins.

.

AS PEDRAS A DEUSA

há quem saiba se diante destas pedras
em feminina forma revelada
talvez atendendo ao nome de deusa
um dia habitaram este mundo
todos os súditos rezando atentos
mas quem sabe se profana ou sagrada
a palavra proferida no lábio
de cada filho abandonado ao culto
inevitável de enigmas e anseios
nem se sabe se eram estes os apelos
à deusa destes ritos esquecidos
não legados aos pósteros bastardos
toda humana descendência
alheia ao enlace entre pedra e deusa

.

LAS PIEDRAS LA DIOSA

hay quien sabe si frente a estas piedras
en forma femenina revelada
tal vez dado el nombre de diosa
una vez habitaran este mundo
todos los súbditos orando atentamente
pero quién sabe si profana o sagrada
la palabra dicha en el labio
de cada niño abandonado al culto
inevitable de enigmas y anhelos
no se sabe si se eran apelaciones.
a la diosa de estos ritos olvidados
no legados a bastardos posteriores
toda descendencia humana
ajena al vínculo entre piedra y diosa

Lançamento da coletânea O RIO

Oficina da Palavra | Teresina, PI
1º de dezembro de 2022

Chakal, Adriano Lobão Aragão, Chico Castro, Cineas Santos e Kilito Trindade
Peça teatral Esperando Godot, em montagem do Grupo Harém
Adriano Lobão Aragão, Francisco Gomes e Kilito Trindade
Adriano Lobão Aragão e Sergia Alves

O rio

Prefácio da segunda edição de O rio, coletânea de poemas sobre o Parnaíba, organizada por Cineas Santos e Adriano Lobão Aragão [Teresina: Fundapi, 2022]

Com sua geografia sinuosa entre os estados do Piauí e do Maranhão, o rio Parnaíba demarca nossa condição de existência nestas paragens. Do âmbito econômico ao ecológico, do cotidiano ribeirinho ao imaginário artístico-cultural, o fluir de suas águas nos acompanha, teimando em resistir ao descaso e às constantes agressões.

No ano de 1980, Cineas Santos organizou, juntamente com Paulo Machado, uma antologia poética intitulada O rio e publicada pelas Edições Corisco, tendo como tema o rio Parnaíba. Além de seus próprios textos, o livro reunia poemas de Climério Ferreira, Vidal de Freitas, Da Costa e Silva, Martins Vieira, Nelson Nunes, Álvaro Pacheco, Kenard Kruel, Clóvis Moura, Raimundo Alves de Lima, Olympio Vaz, William Melo Soares, H. Dobal, Salgado Maranhão, Rubervam Du Nascimento, Herculano Moraes, Francisco Miguel de Moura, Menezes de Moraes. Quando Cineas me convidou para colaborar numa nova edição de O rio, desde o início sabíamos que construiríamos uma obra seguindo as mesmas feições da anterior, um amálgama de gerações e versos que, a partir do rio Parnaíba, apresentam tons e pontos de vista distintos. Todos os autores (alguns de saudosa memória) e poemas constantes na edição de 1980 permanecem na atual, acrescida agora de diversas outras vozes que também ecoam e reverberam pelo itinerário deste rio.

Após os poemas, a edição original de O rio apresentava uma sessão de fotos, intitulada Imagens do rio, contando com trabalhos de Assaí Campelo, Nonato Carvalho, Jorge Riso e Aureliano Müller. Decidimos preservar tal feição imagética da obra trazendo uma seleção de fotos de Assaí Campelo feitas na época da primeira edição, apresentadas na contracapa, orelhas e ao longo deste livro. A foto da capa é de autoria de Paulo Barros.

E agora, ante suas águas, coroas, canoas e demais embarcações, seus peixes e demais viventes, fica o convite para navegar nas múltiplas correntezas deste rio.

Adriano Lobão Aragão

Estas flores de lascivo arabesco

TEU CORPO AO DORMIR MEU CORPO BUSCA
Adriano Lobão Aragão

teu corpo ao dormir meu corpo busca
em teu colo se debruça
minha face que teu cheiro aguça

minha face tua face
minha mão que tua mão segura
enquanto dorme
e segura minha mão a mão tua

teu corpo ao dormir me procura
e sobre minha perna tua perna perdura
e sobre tua perna a minha imita a mesma postura
e dura infinito neste sono a minha carne dura

encosta na minha a face tua
encosta em mim por todo sono
o seio o lábio a vulva
e deixa assim junto o sonho
de sempre habitá-la nua

e quando a mim à noite assim se debruça
mais que teu corpo meu sonho busca

Estas flores de lascivo arabesco
Poemas eróticos piauienses
Organização: Feliciano Bezerra e Wellington Soares
Teresina: Fundação Quixote, 2008
poemas: Dou-te meu cravo, Safo [pág 14] | A bailarina da Ásia [pág 15] | Assim sutil recompõe [pág 16] | Teu corpo ao dormir meu corpo busca [pág 17]

Babaçu lâmina

HÁ SANGUE NAS MÃOS
Adriano Lobão Aragão

há sangue nas mãos
que nem o esquecimento é capaz de lavar
há sangue na memória amputada dos olhos
que testemunharam dores e choques e horrores
nos dedos em riste apontando o anseio pela supressão da vida
há ainda este tempo que nada deixa amadurecer

no entanto há vida
nas mortes que vivem sem explicação
na inútil tentativa de assassinar esperanças
no grito surdo das bocas silenciadas
em todas as formas de amor que resistem à vitória do ódio

há ainda este tempo

Babaçu lâmina: 39 poemas
Organização: Carvalho Junior
São Paulo: Patuá, 2019
poema: Há sangue nas mãos [pág 17]
resenha | comprar

A vida é um ônibus

MIRÓ ATÉ
Adriano Lobão Aragão

Miró até agora
santo de rua
da Muribeca
de passos e praças
de versos desarma
as amarras do tempo

Miró até então
firme quando trôpego
lírico quando crítico
seu drible de menino
resiste na poesia
campo de eterna travessia
Miró até além

A vida é um ônibus: Miró da Muribeca
Organização: Wellington Soares e Thiago E
Teresina: Lamparina Editora, 2022
poema: Miró até [pág 10]