Tragédia Yanomâmi

Adriano Lobão Aragão

99
100 c
210 cr
321 cri
432 cria
543 crian
554 crianç
565 criança
570 crianças
570 crianças m
570 crianças mo
570 crianças mor
570 crianças mort
570 crianças morta
570 crianças mortas
21 pedidos de socorro
21 pedidos de socorro ig
21 pedidos de socorro igno
21 pedidos de socorro ignora
21 pedidos de socorro ignorados
Genocídio tem nome e sobrenome

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publicado originalmente na revista Bangüê

Gramática reflexiva

COCAL DOS ALVES
Adriano Lobão Aragão

nos campos onde pastam
bois e cabras persiste
o caminhar do tempo
ruminando o desdobrar
da existência

diante dos bancos alinhados
na praça da igreja
a sombra das árvores
abriga a permanência dos dias
a mansidão da tarde
espalhada pelo horizonte
desenhado entre serras
em que campeiam lembranças
semeadas na resistência das pedras

.

Gramática Reflexiva | sexto ano
William Roberto Cereja e Carolina Dias Vianna
5ª edição. São Paulo: Saraiva, 2019
poema: Cocal dos Alves, p.218

Noite de dezembro

Adriano Lobão Aragão

as cinco almas desta família
reunidas no silêncio da noite
celebram sua incômoda comunhão
no rascunho de sorrisos frios
repetidos nos gestos de comer e beber

no entanto é noite de dezembro
o avô morto há duas décadas
permanece jantando na mesa vazia
indiferente aos olhares das crianças

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publicado originalmente na revista Germina

Revista Brasileira

NÃO DEIXAMOS NOSSAS PEGADAS
Adriano Lobão Aragão

não deixamos nossas pegadas
no calçamento desta rua
repleta de pedras pontiagudas

deixamos o sangue de nossos pés
cortados no jogo de bola
onde o único ofício das chinelas
era servir de trave para o gol
contado em pés descalços

então a rua deixava em nós suas pegadas
demarcadas pela tintura do mercúrio-cromo
ou pela dor do mertiolate e da água oxigenada

também a bola recebia seus remendos
quando furada cortada ou rasgada
e outra bola mais antiga cedia um recorte
que seria colado com faca quente

não deixamos nossas pegadas
no calçamento desta rua
deixamos o sangue e outras feridas ao relento
esperando o tempo decidir esquecer ou emendar

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Revista Brasileira
Fase VIII, Ano VI, Nº 91
Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2017.
Editor: Marco Lucchesi | ISSN 0103707-2
| poemas: Peito de Moça, p.232; Inhuma, p.232; Quixadá, p.233; Uruçuí, p.233; Cocal, p.233; Fortim, p.234; Ainda havia carambolos nos muros, p.235;  O muro além do jardim demarcava, p.236; Não deixamos nossas pegadas, p.237; Assar castanha, p.238. | Download da edição completa

O rio

Prefácio da segunda edição de O rio, coletânea de poemas sobre o Parnaíba, organizada por Cineas Santos e Adriano Lobão Aragão [Teresina: Fundapi, 2022]

Com sua geografia sinuosa entre os estados do Piauí e do Maranhão, o rio Parnaíba demarca nossa condição de existência nestas paragens. Do âmbito econômico ao ecológico, do cotidiano ribeirinho ao imaginário artístico-cultural, o fluir de suas águas nos acompanha, teimando em resistir ao descaso e às constantes agressões.

No ano de 1980, Cineas Santos organizou, juntamente com Paulo Machado, uma antologia poética intitulada O rio e publicada pelas Edições Corisco, tendo como tema o rio Parnaíba. Além de seus próprios textos, o livro reunia poemas de Climério Ferreira, Vidal de Freitas, Da Costa e Silva, Martins Vieira, Nelson Nunes, Álvaro Pacheco, Kenard Kruel, Clóvis Moura, Raimundo Alves de Lima, Olympio Vaz, William Melo Soares, H. Dobal, Salgado Maranhão, Rubervam Du Nascimento, Herculano Moraes, Francisco Miguel de Moura, Menezes de Moraes. Quando Cineas me convidou para colaborar numa nova edição de O rio, desde o início sabíamos que construiríamos uma obra seguindo as mesmas feições da anterior, um amálgama de gerações e versos que, a partir do rio Parnaíba, apresentam tons e pontos de vista distintos. Todos os autores (alguns de saudosa memória) e poemas constantes na edição de 1980 permanecem na atual, acrescida agora de diversas outras vozes que também ecoam e reverberam pelo itinerário deste rio.

Após os poemas, a edição original de O rio apresentava uma sessão de fotos, intitulada Imagens do rio, contando com trabalhos de Assaí Campelo, Nonato Carvalho, Jorge Riso e Aureliano Müller. Decidimos preservar tal feição imagética da obra trazendo uma seleção de fotos de Assaí Campelo feitas na época da primeira edição, apresentadas na contracapa, orelhas e ao longo deste livro. A foto da capa é de autoria de Paulo Barros.

E agora, ante suas águas, coroas, canoas e demais embarcações, seus peixes e demais viventes, fica o convite para navegar nas múltiplas correntezas deste rio.

Adriano Lobão Aragão

Estas flores de lascivo arabesco

TEU CORPO AO DORMIR MEU CORPO BUSCA
Adriano Lobão Aragão

teu corpo ao dormir meu corpo busca
em teu colo se debruça
minha face que teu cheiro aguça

minha face tua face
minha mão que tua mão segura
enquanto dorme
e segura minha mão a mão tua

teu corpo ao dormir me procura
e sobre minha perna tua perna perdura
e sobre tua perna a minha imita a mesma postura
e dura infinito neste sono a minha carne dura

encosta na minha a face tua
encosta em mim por todo sono
o seio o lábio a vulva
e deixa assim junto o sonho
de sempre habitá-la nua

e quando a mim à noite assim se debruça
mais que teu corpo meu sonho busca

Estas flores de lascivo arabesco
Poemas eróticos piauienses
Organização: Feliciano Bezerra e Wellington Soares
Teresina: Fundação Quixote, 2008
poemas: Dou-te meu cravo, Safo [pág 14] | A bailarina da Ásia [pág 15] | Assim sutil recompõe [pág 16] | Teu corpo ao dormir meu corpo busca [pág 17]

Babaçu lâmina

HÁ SANGUE NAS MÃOS
Adriano Lobão Aragão

há sangue nas mãos
que nem o esquecimento é capaz de lavar
há sangue na memória amputada dos olhos
que testemunharam dores e choques e horrores
nos dedos em riste apontando o anseio pela supressão da vida
há ainda este tempo que nada deixa amadurecer

no entanto há vida
nas mortes que vivem sem explicação
na inútil tentativa de assassinar esperanças
no grito surdo das bocas silenciadas
em todas as formas de amor que resistem à vitória do ódio

há ainda este tempo

Babaçu lâmina: 39 poemas
Organização: Carvalho Junior
São Paulo: Patuá, 2019
poema: Há sangue nas mãos [pág 17]
resenha | comprar

A vida é um ônibus

MIRÓ ATÉ
Adriano Lobão Aragão

Miró até agora
santo de rua
da Muribeca
de passos e praças
de versos desarma
as amarras do tempo

Miró até então
firme quando trôpego
lírico quando crítico
seu drible de menino
resiste na poesia
campo de eterna travessia
Miró até além

A vida é um ônibus: Miró da Muribeca
Organização: Wellington Soares e Thiago E
Teresina: Lamparina Editora, 2022
poema: Miró até [pág 10]