pintada em verbo angústia nenhuma palavra incendeia decantada a mesma iluminada metáfora escura seguindo em eterna fuga do discurso que se perca
expressão que inexata deseja toda exatidão envolta entre sim e não se refaz a dúbia certeza exatidão toda inexata que deseja expressão
qual verbo abandonado por remota prosa incontida qual chama irrestrita escrevendo seu ardor devastado cinza palavra ao vento calado palavra descrita
como que semeando a si espalhando do vento ao gosto as cinzas em torno de todas as obras a destruir
(as cinzas as palavras, 2009)
as odes os signos
estas odes que aqui se erguem como estranhos obeliscos emanam como desencanto louvando o próprio canto palavra perdida lançada em busca de alheio signo
este verbo disperso em distante campo de poeira areia estéril onde não canta tágide nem musa estância onde não se encontra em seus cantos engenho e arte
nem alegre lembrança vestida de esquecidas ânsias nem rústico altar profano onde sem música se dança aquém dos verbos de outrora além dos versos de amanhã
decantados em prosa elegia e hino assim recordam estas odes aqui erguidas em busca de signo alheio
(as cinzas as palavras, 2009)
as tardes as manhãs
as tardes quentes e iguais a todas as outras as manhãs desprovidas de ânsias vãs seguem lentamente aos currais como se guardassem mais que o passado dos dias de amanhã
e perene a si tece a tarde disposta sobre nós como noite de homem só como tempo que não se mede agudo vento que segue sem rumo sem prumo sem voz
iguais a todas as outras se tramam em nós as marcas em caminho aberto a faca como vento leva suas folhas iguais a todas as horas na erma eternidade do nada
e perene a si tece a tarde disposta sobre nós as tardes quentes e iguais a todas as outras as manhãs
(as cinzas as palavras, 2009)
os blocos os sujos
e todos sabiam que ali estavam todos sujos do que sua alegria era possível conceder
e todos sabiam que era apenas carnaval aquele cortejo trôpego desfeito de fantasia e ilusão