Mafuá – primeiro capítulo

ARAGÃO, Adriano L. Mafuá. Teresina: Fundação Quixote, 2026

1 QUARTA-FEIRA, DE MANHÃ

Enquanto caminhava com sua mãe para o Mercado do Mafuá, Dionísio estranhou o alvoroço que se formou na calçada da rua Gabriel Ferreira, entre as ruas Manoel Domingues e Alcides Freitas. Havia uma aglomeração sob a marquise. E chegava ainda mais gente. Era impossível passar indiferente a tamanha movimentação. Dionísio estava apreensivo com tudo aquilo, e só conseguia ouvir expressões entrecortadas pelas diversas pessoas que tentavam explicar umas às outras o que achavam que tinha ocorrido, com toda a certeza e convicção de quem não fazia ideia do que de fato aconteceu ali. Sentindo um aperto no peito, puxou a mãe pelo braço e indagou o que era aquilo tudo, aquele povo todo se acotovelando, um nervosismo que parecia se espalhar pelo ar. Dalva apenas respondeu que não deveria ser nada, que não era nada não. Até pensou em ignorar o alvoroço na calçada e seguir adiante, ir logo para casa. Seja lá o que tenha ocorrido ali, certamente não seria coisa para menino ficar vendo, principalmente menino curioso feito Dionísio. Melhor ir logo para casa, pensou novamente. Não temos nada a ver com isso. Melhor é nem olhar. No entanto, quase que instintivamente, ela começou a se esgueirar entre a multidão até ficar diante daquele corpo ensanguentado, caído no chão. A boca aberta, os olhos fechados, o cheiro de sangue misturado a um forte odor de álcool e urina. Sua alma estremeceu. Não saberia precisar quanto tempo ficou atônita. Não saberia dizer o que estava sentindo. Só voltou a si quando a mão de Dionísio apertou mais intensamente a sua, como que reagindo àquela cena. De imediato, retirou o filho dali e seguiram apressadamente de volta para casa, na rua Amazonas, conforme deveria ter feito desde o início. Não temos nada a ver com isso. Melhor era nem olhar. Melhor era nem ter visto, repetia para si.
O cadáver que jazia naquela manhã era de Mansueto. Não demorou para que fosse reconhecido pelos primeiros transeuntes que o encontraram, já sem vida. Com certeza, morreu de madrugada. Morte matada. Um rastro de sangue marcava a calçada por alguns metros, logo depois da loja de material de construção, indo no rumo da Alameda Parnaíba. Isso talvez indicasse a direção de onde vinha, ou ao menos o local em que teria sido esfaqueado. Porque parece ter sido esfaqueado. Provavelmente duas ou três vezes, na região lateral da barriga. Alguém mencionou que ele não portava documentos nem nada. Outros especulavam que havia sido roubado, inclusive depois de morto, pois se tivesse carteira, dinheiro, cigarro, o que fosse, alguém não poderia ter levado? Tem muito amigo do alheio por aí, e esse povo da mão leve não dispensa nem defunto. Não faltou também quem falasse, em tom de pilhéria: um bêbado lascado e fodido desses lá teria grana de que mesmo para ser roubado? Só na tua cabeça! Houve quem risse. Sempre há quem ria diante da desgraça alheia. E essa braguilha aberta? O homem estava era mijando quando mataram ele? Ou foi o ladrão que abriu as calças dele para ver se teria algum trocado escondido debaixo dos quiba? Esse aí tem muita história, muita coisa, não queira nem saber. É muita história e pouca pinta, isso sim. Mais risos. Morrer mijando é o de menos, alguém dizia. A pouca vergonha desse povo é que tá demais, respondiam. O que eu sei é que hoje em dia não se pode mais nem mijar em paz. Deveriam pelo menos ter esperado o cara terminar. Não deixaram nem o condenado guardar a pirrola. Seu Defino ofereceu um jornal para cobrir o cadáver, principalmente as partes que, para seu decoro, precisavam estar cobertas, posto que ninguém se dispôs a fechar-lhe as calças. Era certo que, em pouco tempo, todos teriam uma história para contar sobre a morte de Mansueto, e a exposição de seu corpo era mais um detalhe a assumir diferentes contornos nas inúmeras versões que passariam a circular pelas ruas e calçadas. Alguém falou que seria bom chamarem o padre. E houve quem mencionasse que ele não iria perder tempo com um desses bêbados que infestam o bairro, mesmo que agora fosse apenas um finado. Ainda mais uma imoralidade dessas, na vida e na morte. Tem cabimento não. Também falavam que ali era só um a menos, e amanhã já apareceriam mais dois no lugar, no mínimo. Repetiam que é sempre desse jeito. Quando morre, vira santo. Vou é valendo. Até parece praga. Que Deus o tenha, disseram. Que o Diabo o leve, alguém retorquiu. Esse aí nem o Diabo quer. Foi quando Atília se benzeu e se pôs a rezar uma Ave Maria. Ninguém segurou as mãos que ela oferecia, ninguém segurou as mãos de ninguém. Alguns poucos, entretanto, acompanharam a reza, quase que maquinalmente, baixinho. Ao terminar, novamente se benzeu e pediu a Deus que recebesse a alma daquele pobre sofredor que de seu talvez não tivesse mais nem um nome. Carzalbé riu e disse que o desinfeliz se chamava Mansueto e que, nessa hora, já deveria estar bebendo cachaça no inferno com o Cão. E bebendo fiado, com certeza, que nem a alma para servir de pagamento acho que ele não tinha. E se tivesse, não ia achar quem pagasse um puto furado. O riso ecoava na calçada, enquanto Atília se afastava em direção ao mercado. Do orelhão da esquina, alguém ligou novamente para a polícia. Quanto tempo mais iriam demorar para aparecer?
Cerca de duas horas depois, uma viatura chegou ao local e logo em seguida veio o carro do IML para fazer o recolhimento do cadáver. Não havia mais tantas pessoas, e o vento ou a curiosidade já tinha arrastado para longe as folhas de jornal que cobriam o corpo de Mansueto, deixando novamente expostos os cortes e a genitália.
– Eita inferno pra ter cão! Que porra é essa agora? Eu jurava que tinha morrido era de cachaça. Parece que tem mais mijo do que sangue. Não tem documento nem nada. Qual era mesmo o nome desse finado, alguém sabe?
Mencionaram que era conhecido como Mansueto. Não se sabia de familiares. Perambulava pelos bares, pelo mercado, por aí. Não tinha profissão fixa, fazia bicos de servente de pedreiro e outros serviços, o que aparecesse, mas, na maior parte do tempo, era visto bebendo. Esse sim era seu principal ofício. E nem dava mais para saber quando estava bêbado ou sóbrio, sempre com a voz embolada e rindo à toa. Mas também não havia notícia de desafetos declarados. Não era de briga não.
– Tem um amigo dele que vive vagabundando pelo Mafuá. Andava muito com ele. Amigo de cagar junto. Atende pelo nome de Berilo. Só não me pergunte pelo sobrenome. Nem sei se ele tem. É tal e qual o que morreu. Imprialzim. Mas é fácil de achar a criatura. Tá sempre pelo mercado e nas calçadas desses botecos todos da região.
– É mala?
– Coisa nenhuma. Só cachaceiro. Não ofende nem o prato que não tem pra comer. O bicho é manso. Parece que não é metido com bandidagem nem confusão não. Só cachaça mesmo.
– Isso a gente ainda vai apurar. Todo mundo é suspeito até que se ache o culpado.
O policial tirou uma pequena caderneta do bolso e fingiu fazer anotações. Após mais algumas perguntas, retornou para o carro com os outros dois que o acompanhavam e foram embora logo após o IML concluir a retirada do corpo. Provavelmente, mais um para a vala dos indigentes.
Pouco tempo depois, Seu Delfino olhava as marcas de sangue no chão em frente à sua loja.
– Esse povo não presta nem pra morrer. Inventa de estrebuchar justo aqui. Emporcalha tudo e depois não aparece ninguém pra lavar minha calçada. Era só o que faltava. Esse mundo tá perdido mesmo.
Cuspiu na sarjeta do esgoto, que corria a céu aberto, puxou uma cadeira e foi ler o que restou do jornal de ontem. Deveria ter alguma notícia importante.

Mafuá

Mafuá, romance de Adriano Lobão Aragão, acompanha as angústias, anseios e desventuras de três gerações de uma família residente nos bairros Mafuá e Vila Operária, na cidade de Teresina, Piauí, na região nordeste do Brasil. Nos anos 40 e 50, temos  Dona Tia, mergulhada em preocupações religiosas, casada com Domingos, sapateiro taciturno que busca ajudar Dodô, seu amigo de infância que desempenhava a atividade de pescador de defuntos no rio Parnaíba. Nos anos 80, as irmãs Dalva, Lourdes e Berta diante de um mundo permeado pela violência e machismo. E temos também a figura de Dionísio, um menino que tem sua vida transformada pelas agruras trazidas pelo destino. Em seus capítulos, Mafuá focaliza a realidade de mercados, subúrbios, trabalhadores e desvalidos que compõe um painel de uma comunidade que transita entre a esperança, a pobreza e a tragédia.

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